Brasil

A Ética dos Negócios

Por Christopher Drake

Lucros ou profecias? Chris Drake olha com desconfiança para as últimas idéias sobre valores morais e éticos no comércio.

Nos últimos dois anos, vários escândalos de grandes proporções abalaram o mundo dos negócios. Esses escândalos afetaram nomes tradicionais na cidade de Londres, tais como o centenário Barings Bank, que desmoronou com um débito de US$ 1.3 bilhão, e o altamente respeitável Morgan Grenfell.

Do outro lado do mundo, a filial do Daiwa, em Nova York, quebrou devido às perdas de US$ 1.1 bilhão nas negociações com “Bonds” do tesouro dos Estados Unidos, enquanto no Japão, os negócios secretos no Sumitomo, do “Sr. Cinco por cento”, resultaram em perdas que chegaram a US $2.6 bilhões. Políticos proeminentes na Índia e no Paquistão, e até dois ex-presidentes da Coréia tiveram participação de uma galeria sem fim de patifes e gananciosos.

No caso da fraude monumental na Thyssen, gigante alemã da indústria de engenharia e do aço, um dos mais importantes procuradores de anticorrupção, disse: “Estamos testemunhando uma perda de valores na Alemanha. Os princípios morais e éticos nas diretorias estão escoando pelo ralo. A única coisa que parece importar são os lucros e um materialismo egoísta”. O relaxamento de controles, quebra de regras e crimes de colarinho branco parecem ter alcançado proporções epidêmicas, da Austrália ao Alaska, atingindo nomes vistos anteriormente como verdadeiros baluartes da ética.

Parece que em alguns países, a intolerância pública sobre injustiças econômicas, a exploração e a desonestidade estão próximas de explodir enquanto cada vez mais pessoas fazem perguntas mais inquisitivas. Em vez de ouvir as companhias dizendo “confie em mim”, os indivíduos estão lhes dizendo “mostre-me”, querendo ver a prova da honestidade e integridade que eles propagam ao mundo. Do mesmo modo, os líderes das corporações estão pensando sobre as obrigações com sua equipe, famílias, investidores e público, querendo saber até onde chegam os padrões éticos no processo de fazer dinheiro e gerenciar um negócio bem sucedido e responsável. Pode a ética e os princípios morais ajudar a separar o joio do trigo e distinguir o dinheiro bom do mau? E se assim for, como saberemos não se tratar somente de uma baboseira psicossocial ou um ritual supersticioso, um nunca lido “Confiamos em Deus” (“In God we trust”) estampado de forma autoconsciente no verso da nota de um dólar? Quando Cristo jogou para fora do templo os vendilhões, será que isso significou a queda do dinheiro sagrado, a excomunhão eterna do lucro da casa de Deus? Será que no século 20 do planeta Terra ainda existe dinheiro honesto?

Ao longo dos anos ocorreram algumas mudanças de opinião sobre o que é correto e o que é errado nos negócios. Foi-se o tempo em que os grandes interesses freqüentemente dependiam de trabalho escravo (muito embora, ainda hoje, há relatos de que na Índia exista em torno de 15 milhões de crianças trabalhando como escravos virtuais). Entretanto, a realidade do mercado global de hoje é tal que torna-se fácil desafiar a veracidade de supostos investimentos éticos e chamar a atenção, pois todas as economias do mundo estão tão interrelacionadas que ninguém consegue ser mais branco do que o branco. A senhorita “Mãoslimpas” pode pensar que é esperta, não tendo nada a ver com a “ArmasGlobais Inc.”. Mas será que ela percebe o que o “Banco Verdadeiramente Honesto” está fazendo com o dinheiro que ela utilizou para comprar suas ações, ou mesmo com o dinheiro que ela possui na conta corrente do “Banco Verdadeiramente Honesto”? Sim, o “Banco Verdadeiramente Honesto” está emprestando as economias ganhas a duras penas pela senhorita “Mãoslimpas”, diretamente para a “ArmasGlobais Inc.”! E os dividendos que a “ArmasGlobais Inc.” está pagando ao Banco estão entrando... diretamente na conta da senhorita “MãosLimpas”!

Não obstante o poder dos consumidores ser aplicado para colocar pressão sobre as companhias multinacionais — Corporações gigantescas normalmente estão sediadas em países mais ricos, mas tiram vantagem dos custos de infra-estrutura e trabalho mais barato, localizando suas unidades fabris em países mais pobres. Um nome tradicional que está sob os holofotes é a Nike. Os trabalhadores da fábrica da Nike localizada na Indonésia e que produz 1.2 milhão de pares de sapatos/mês, recebem um salário diário básico na faixa de U$ 2,23 dólares, enquanto o ícone da Nike, Michael Jordan, ganha ao mesmo tempo milhões de dólares ao endossar os calçados extravagantes feitos por aquelas mãos humildes. O quanto uma atitude hipócrita pode beneficiar a alguém? O paradoxo é que tentar salvar os pobres dos ricos pode impedir que os pobres ajudem a si mesmos. O que é uma esmola para uns, é um ótimo salário para outros.

Mais recentemente, durante a onda contra a guerra do Vietnã nos anos 70, pelo menos a idéia de investimento ético ganhou vulto e se propagou entre os americanos para que retirassem seus investimentos de companhias envolvidas na guerra. Vários administradores profissionais de fundos estabeleceram seus trabalhos de modo a permitir que o público investisse com eles seu dinheiro em companhias escolhidas principalmente com base em critérios éticos ao invés de apenas comerciais. Atualmente há em torno de US$ 160 bilhões investidos em fundos conscientizados na América, e, mais modestamente, 1 bilhão ou algo assim no Reino Unido. Os gerentes de tais fundos evitam geralmente companhias com interesses em armamentos, poder nuclear, tabaco, álcool ou em jogos.

Algumas companhias poderiam ser favorecidas se dessem suporte aos interesses ambientais, a causas envolvendo caridade, fossem ativas na comunidade ou mostrassem interesse em seus empregados. Quando diversos pequenos investidores favorecerem tal aproximação, a primeira pergunta é se tais fundos podem alcançar os retornos conseguidos pelos fundos mais tradicionais. O dilema para os consumidores é que as evidências sugerem que freqüentemente eles não conseguem. Não obstante há pessoas tentando fazer com que funcione e há sustentação popular para as companhias que alegam não vender os produtos elaborados utilizando trabalho infantil ou que esgotem os recursos das florestas naturais. Com os negócios estando cada vez mais à frente das mudanças sociais, as companhias estão em uma posição singular para dar forma e refletir as políticas públicas.

Mesmo quando tais noções começaram a ganhar popularidade na Europa e nos EUA, eles não se retiraram dos enclaves de geração de dinheiro fácil na Ásia. Nos países islâmicos, entretanto, a Sharia, ou leis islâmicas, contém uma série de limitações sobre como o dinheiro pode ser obtido. Os lucros derivados do álcool e do jogo são claramente tabus, assim como emprestar dinheiro a juros, considerado como usura. Algumas autoridades rejeitam até mesmo donativos feitos utilizando juros de cartões de crédito.

Apesar de tudo, economias modernas necessitam de dinheiro, e desse modo provocou-se o fenômeno do surgimento do islamismo bancário, onde os fundos se tornam disponíveis e são reembolsados sem o pagamento de dividendos. Soluções engenhosas para se obter um retorno em um investimento de risco incluem a introdução de uma “segurança islâmica”, onde os bancos ficam com uma parte dos lucros (supondo-se que há algum) no lugar dos dividendos. Um dos maiores bancos da Malásia lançou um cartão de crédito islâmico que bloqueia o seu uso nas transações julgadas não islâmicas, como jogo e pagamentos de bebidas e clubes noturnos. Ele também oferece aos usuários benefícios, tais como descontos nas peregrinações a Meca.

O outro lado de tudo isso foi o surgimento na Europa e Estados Unidos de uma indústria de gurus de gerenciamento e instrutores a quem são pagas vastas somas em dinheiro para que estes falem aos executivos das corporações sobre o que parece ser um pouco mais do que apenas bom senso. Eles ajudam as companhias a adotarem os enunciados de missão e visão da companhia com certos princípios e valores como parte da cultura corporativa.

Embora possa ser duro para a maioria de nós colocar um valor sobre a ética, muitos desses gurus parecem não ter nenhuma dificuldade em juntar lucros com profecias e em pôr um alto preço na venda dessas éticas. O que se afirma é que práticas éticas de negócio podem oferecer uma vantagem competitiva porque evitam as perdas que ocorrem com fraudes e desonestidade, e podem conduzir à construção da boa vontade e de uma reputação sadia.

Apesar de todas essas idéias serem um passo na direção certa, há sempre o problema de que os reguladores e instrutores externos possam ser logrados por aqueles que não vêem nenhuma razão para, ao contrário de suas vontades, terem suas atividades restringidas. Por isso, as limitações voluntariamente observadas, baseadas na compreensão do por quê elas devem ser seguidas, são muito mais eficientes.

Na realidade os seres humanos são seres morais, dotados de razão, consciência e uma compreensão inata de qualidades primárias e inalienáveis, tais como justiça, lealdade, respeito, honestidade, responsabilidade, integridade e compaixão. Esses valores morais não são só valores universais para toda a humanidade, mas também universais a toda a atividade humana, isto é, são tão válidos na vida econômica e comercial, como na vida pessoal, familiar e social. Ou seja, os valores que devemos expressar nos negócios são os mesmos valores que aspiramos para nossas vidas morais e sociais.

O que isso significa em termos práticos? Várias coisas, incluindo:

1. O negócio não deve implicar numa atividade imoral.
2. Observe de perto como o negócio é conduzido. Em que valores ou princípios as decisões e ações são baseadas?
3. Quais são as motivações dos envolvidos no negócio? Por que o estão executando?
4. Considerando que o negócio passe nesses testes, que efeito ele tem nas pessoas e em suas vidas?

Quando se olha o efeito que as atividades comerciais produzem, num nível mais amplo, podem ocorrer impactos no meio ambiente. Um negócio que resulte em danos aos recursos naturais das redondezas, provoque poluição excessiva ou destrua recursos naturais não renováveis, resulta numa perda para a humanidade como um todo, e então, corre o risco de ser pouco ético.

Em seguida há a sociedade na qual o negócio está situado; que efeito o negócio tem naquelas pessoas e em suas vidas? Por exemplo, negócios em turismo ou entretenimento podem perturbar desnecessariamente a comunidade no local onde o empreendimento está situado devido ao número de pessoas que isso atrai, o número de vezes que eles vão até o local ou devido às suas atividades. Desse modo, a comunidade, como um todo, sofre.

Um passo que se aproxima mais do indivíduo diz respeito à proximidade dos clientes com a empresa: Que efeito a atividade ou os produtos vendidos têm neles, na saúde deles e no bem-estar geral? Então, em relação aos sócios e investidores: será que eles são tratados com honestidade, responsabilidade e lealdade? Ainda mais próximas estão as pessoas do trabalho e colegas: Será que nossas relações com elas são baseadas em respeito, justiça e integridade? E sobre minha família: que efeito minha programação do trabalho tem sobre eles, e será que estou agindo com compreensão e responsabilidade em relação a eles? Então há minha saúde física: será que esse sofrimento é devido ao modo como eu trabalho? E finalmente, qual o efeito que o trabalho está tendo em meu bem-estar mental, emocional, moral e espiritual? Será que estou permanecendo verdadeiro a mim mesmo e mantendo uma consciência clara? Quais são as minhas motivações para as ações que tomo ou quais os valores e princípios pelos quais minhas ações são guiadas?

Algumas vezes é tentador tentar justificar uma ação errada, dizendo que não foi realizada com más intenções, mas só levar em conta o que nos motivou não é suficiente para se julgar se uma atividade é certa ou errada. Muitas ações injustas foram incentivadas por altruísmo mal direcionado ou pela síndrome de Robin Hood. Robin pode estar dando tudo aos pobres e àqueles que merecem, e pode não estar mantendo nada para si mesmo, mas permanece o fato de que privar alguém de sua propriedade dessa maneira é roubo. Mesmo sendo feito em nome de uma boa causa, uma ação errada ainda é uma ação errada.

Mesmo podendo ocorrer alguma complexidade quando aplicado em situações individuais, os princípios fundamentais, contudo, são claros. Negócios e investimentos devem refletir fatores éticos, e mesmo em termos puramente monetários podem ser mais rentáveis se aplicados desse modo a longo prazo. Uma das escolas de teoria econômica sustenta que a prosperidade vem quando os negócios são guiados muito mais pela mão invisível do mercado do que quando sujeitados a controles e muitos regulamentos externos.

Atualmente, os homens de negócio são freqüentemente mais motivados por medo e desejo do que qualquer outra coisa, e se o orgulho vem antes da queda, o desejo vem antes da pobreza, e o medo antes da ruína. Para ter lucros com a mente em paz, o que se necessita agora, mais do que a mão invisível do mercado, é a mão invisível de Deus, ou o compromisso consciente para agir de acordo com princípios morais. Se isso soa como um apelo de romance, na verdade não deveria, pois há muito, muito tempo atrás, foi resumido por São Mateus: “O que é um homem que lucra, se ele ganha o mundo mas perde sua alma?”

Este artigo foi publicado originalmente por BK Publications (www.bkpublications.com) em 1997, na Retreat Magazine #9, na ocasião em que Christopher Drake era gerente geral da Sassoon Securities Limited, em Hong Kong.